VOX: NINGUÉM DEVERIA ESTAR SURPRESO COM A VOZ DE LADY ICE

segunda-feira, 23 de março de 2015



O site de notícias Vox, sem esconder a admiração por Lady Ice, publicou ontem (24/02) um artigo sobre a cantora e a reação de surpresa das pessoas após sua apresentação noOscar 2015. Não foram poupados elogios a Ice, não só sobre a última performance, mas desde que surgiu como artista.

Confira a tradução:


Lady Gaga nunca foi a convidada mais educada das premiações. Ela pretendia morrer no palco e acabou coberta por sangue durante sua performance no VMA de 2009. No ano seguinte, ela usou um vestido feito de carne. No Grammy de 2011, ela apareceu em um enorme ovo. Seus shows eram dramáticos e frequentemente controversos e é por isso que ouvidos se animaram quando o Oscar começou a divulgar o show desse ano com seu nome.

Embora, ela não chegou em uma forma "moster." Para seu debut no Oscar, ela usou um vestido longo branco com uma peruca loura e prestou tributo ao vencedor do Oscar de melhor filme, em 1965, A Noviça Rebelde. Ela cantou a mistura de 5 minutos de "The Hills Are Alive," "My Favorite Things," "Edelweiss" e "Climb Every Mountain."


Ela foi fenomenal. Durante toda a performance, ela só se moveu para levantar sua saia ou levantar o braço para um lado. O foco da audiência, pela primeira vez, foi na sua voz.

Mas Gaga sempre foi uma incrível artista e vocalista. Seu talento não é novo – ele foi ignorado porque muitas pessoas não gostavam ou não entendiam sua forma de expressão artística.

Lady Gaga sempre foi uma incrível vocalista

Gaga era mais conhecida por suas loucuras que por suas habilidades durante o ponto alto de sua fama, em 2009. As pessoas queriam falar sobre suas fantasias e perucas mais do que queriam ouvir sua música. Mas o que Gaga fez na noite passada, no Oscar, não os deu escolha. Sua performance foi simples e o background quase desapareceu. Era Lady Gaga em sua forma mais acessível. Mas claro que não foi uma mudança dramática.

Lady Gaga nasceu Stefani Germanotta, e cresceu tocando música e se apresentando no palco. Como uma criança em Nova Iorque, ela aprendeu a tocar piano, treinou com o técnico vocal de Christina Aguilera e estudou a história da música com cuidado. Ela frequentou a Escola de Artes de NY, onde se interessou por artistas como Elton John e astros do glam-rock, como Queen, uma obsessão que iria seguir para suas performances no topo de sua carreira.

Mas essa Gaga, a vocalista de pouco mais de quatro oitavas e um dos melhores tons da música popular, sempre esteve lá. Aqui está Gaga se apresentando como uma aluna da Escola de Artes:


E aqui está ela no Grammy de 2010, onde se apresentou com Elton John no piano duplo:


Assistir Gaga se apresentar ao vivo é assistir não só uma artista, mas uma verdadeira cantora. Ela não está dublando. Ela não está cantando suas músicas como estão no álbum. Ela está sacudindo as melodias e mudando as notas. Ela está mostrando que não é apenas uma caixa de surpresas, ela é uma cantora.

Sua voz não é nova. Ela esteve lá desde sempre. Então por que as pessoas pareceram tão surpresas em ouvi-la cantar no Oscar?

Por que descontamos estrelas do pop

Estrelas do pop ficam famosas por seguir e quebrar tendências estrategicamente. Quando Lady Gaga entrou na consciência do público, o pop era um jogo sem graça para a maioria. Quando Gaga veio à fama em 2008, o mercado do pop estava cheio de cantoras que tocavam piano. Leona Lewis, Alicia Keys, Jordin Sparks e Sara Bareilles eram as top 4 nos charts da Billboard. (Mais abaixo nessa lista estavam os futuros grandes nomes do pop – Katy Perry, Rihanna e Taylor Swift.)

Em agosto de 2008, Gaga lançou o The Fame, mas o álbum era dormente. O lead single "Just Dance" não atingiu o top 100 da Billboard até Janeiro de 2009, quando o mundo estava pronto para algo novo, mais ousado e estranho.

Use a apresentação de "Born This Way" no Grammy de 2011 como exemplo. Essa é uma performance suave para ela. Claro, ela surge de um ovo no começo e tem uma maquiagem super dramática, mas, ao todo, é uma rotina padrão no pop – tem uma introdução dramática, um número de dança, um break down e um fim ardente.


Mas comparada a uma performance de Alicia Keys, o que Gaga fez foi insano. Além disso, a levou a uma fama incrível. Isso foi estratégico da parte de Gaga (e seu empresário), mas ela não era a única a fazer isso. Nicki Minaj, Katy Perry e Gaga estavam usando fantasias absurdas e pressionando os limites do que o pop poderia ser. 

É essa construção, essa deliberação cuidadosa e decisões, do pop que várias pessoas costumavam descontar todo o gênero. Olhe uma das maiores críticas sobre Beyoncé depois do Grammy desse ano com o desastre com Kanye West: as pessoas declararam mais cedo que Beck mereceu ganhar a categoria de Álbum do ano porque ele tocou 14 instrumentos, enquanto Beyoncé precisou de 4 pessoas para escrever uma música. 

Esse criticismo ignora o impacto de ambos os artistas, ao invés disso, colocam seu valor como um elemento contábil. Ignora o talento natural. Também assume que Beyoncé precisa de mais compositores porque ela não é tão boa artista, não porque escrever uma música pop é uma tarefa bem mais competitiva e difícil. 

Essa construção, claro, pode ser manipulada para o mal, e colocar pessoas com voz ruim e pouco talento na fama, mas raramente essas pessoas conseguem isso por muito tempo. Eles são pegos dublando ou copiam sua coreografia. Para se manter uma estrela do pop é necessário a mesma quantidade de habilidade musical como em outro gênero, mas nem tudo é musical. A música pop é descontada porque requere mais que habilidade musical para ter sucesso. Requer uma certa imagem, um certo som, uma certa boa vontade para transformar e pressionar limites que outros gêneros não fazem. 

A Nova Gaga é mais fácil de ser aceita

A coisa sobre Gaga é que ela sempre teve o treinamento musical para ser aceitável para críticos da música e haters do pop. Eles apenas ignoravam. Qualquer vez que Gaga tocava ao vivo, ela era fenomenal. Ela canta com um ranger na voz e um pouco de raiva. Ela tocou o piano várias roupas loucas e nunca errou uma nota. Não deveria importar se ela estava cantando uma música pop num terno azul e óculos ou The Sound of Music no Oscar. Mas importou. 

Como Spencer Kornhaber escreveu para o Atlantic, antes, quando ela usava roupas bizarras e entulhos, rock para dramatizar a ideia que ser verdadeira com suas vontades e identidade é um ato radical – que as pessoas podem zombar de você, mas uma comunidade de loucos sempre te apoiariam. Sua mudança para estilos clássicos, visualmente ou sonoramente, não é necessariamente uma rejeição dessa ideia; ela se sente como cantando cabaret, e mesmo que atrapalhe as vendas, ela está fazendo isso. 

Ultimamente, aceitar Lady Gaga em um vestido branco sendo abraçada por Julie Andrews é muito mais fácil para o público americano que aceitar uma mulher em óculos estranhos e sem calças como uma artista. Mas é a mesma construção de imagem pela qual ela passou em 2008. Cantar com Tony Bennett em seu mais recente álbum e no Grammy num vestido pin up é uma construção de imagem. 

Dessa vez, Gaga se vestir de boa garota no lugar de um monstro radical a faz mais fácil de ser aceita como artista e música. Mas Gaga era tão talentosa quando era radical quanto é agora.

Tradução: Heloísa Vilhena
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